Quando o questionário vira marketing — e o eleitor, figurante.
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A nova pesquisa divulgada em Vitória da Conquista chegou reluzente, celebrando números como se fossem grandes revelações do cenário político. Mas basta folhear os dados com um mínimo de ceticismo para perceber que há mais malabarismo metodológico do que análise estatística.
O maior exemplo de criatividade? A inclusão do nome “Wagner de Sheila”. Isso não é identificação: é propaganda embutida. Associar o pré-candidato ao nome da prefeita, que goza de boa aprovação, cria um atalho emocional para o entrevistado. Não se mede Wagner Alves — mede-se o sinal da gestão municipal colado no nome dele.
E assim o “fenômeno”: de 4,58% para 12,8% em poucos meses. Um crescimento tão mágico que, se fosse real, já teria virado case de Harvard. A explicação oferecida pela matéria — a alta aprovação da gestão — soa conveniente demais. Até porque, convenhamos: a infraestrutura da cidade não está exatamente em harmonia com essa aprovação exuberante. Buracos, problemas recorrentes, mobilidade caótica… se tudo isso convive com índices tão positivos, talvez o problema não esteja na cidade, mas na metodologia da pesquisa.
Somado a isso, nenhum outro pré-candidato recebeu o mesmo “tratamento VIP” no questionário. Ninguém virou “Fulano de Cicrano”, ninguém ganhou empurrãozinho emocional. Quando apenas um nome recebe selo de garantia política na pergunta, a disputa deixa de ser justa antes mesmo de começar.
E como se não bastasse, a pesquisa ignora atores relevantes do cenário, como o ex-prefeito Quinho, nome forte para deputado estadual e dono de um grupo político que demonstrou força nas urnas, especialmente com a expressiva votação de Léia de Quinho. Difícil falar em “retrato fiel do momento” quando um jogador desses nem aparece na foto.
Para completar, mistura-se avaliação de governo com intenção de voto, como se elogiar a gestão municipal significasse carimbar automaticamente uma preferência eleitoral. A política — e principalmente o eleitor — não funciona assim. O eleitor gosta, critica, separa, pondera. Não é um botão de “OK, concordo com tudo”.
A pesquisa não precisa ser descartada. O problema é a leitura animada demais, que transforma vieses em virtudes e omissões em conclusões triunfais. Se a intenção fosse medir o cenário com seriedade, bastaria aplicar o básico: testar os candidatos por seus nomes civis, sem muletas políticas, incluir todos os nomes relevantes e ajustar a metodologia para refletir a realidade — inclusive a realidade do asfalto.
No fim, fica a lição: em pré-campanha, a forma como se pergunta define o que se descobre. E, às vezes, revela até o que não se queria mostrar.

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